sábado, 10 de Outubro de 2009

[75]

Ela sente que tudo em ser redor, se transforma, cresce, multiplica, segue o seu rumo. Mas olha para a sua vida e vê-a como algo estagnado, preso ao tempo e a um lugar. Vê os amigos na universidade, a sair, com namorados e sente-se presa á sua humilde e simples vida. Como se nada lhe acontecesse. Os dias transformam-se num simples passar de tempo. Passa o dia sem fazer nada e a pouca vida social que tinha, desaparecera. Sente-se constantemente com frio. Nem o pijama de Inverno e os cobertores são suficientes. Parece que o frio já está entranhado no seu ser e não faz ideia de sair tão cedo.
Sente-se sozinha. Perdida no seu pequeno mundo. Como se ninguém nota-se que ela está ali. Como se de repente, se tivesse tornado invisível. Passando pela vida dos outros, sem que ninguém desse por isso. Sente-se frustrada consigo mesma. Problemas familiares. Problemas financeiros. Problemas amorosos. Tudo acontece em simultâneo e o seu pequeno mundo, está prestes a ruir. Quer ter uma família, mas olha para o futuro, como algo demasiado distante, e até, inalcançável. Sente-se a retroceder, a diminuir.
"É só uma criança, tímida e anti-social que não sabe nada da vida", pensam eles. Ela precisa de ajuda, precisa de uma mão, uma corda que a tire daquele sítio, o mais depressa possível. Mas eles não percebem, só precisam dela quando não estão bem, e mesmo assim, ela consegue arranjar força para ouvi-los e apoiá-los. Ela é capaz de tudo por eles, mas eles não sabem. Não têm noção e se calhar nunca vão ter, porque a "criança", está prestes a bater no fundo e quando isso acontecer, e eles se aperceberem, a corda será curta demais e ela ficará eternamente naquele lugar.
As fotografias são apenas folhas de papel; as músicas, sons aleatórios. A cada dia que passa, perde mais uma parte de si. Tem dificuldades em dormir, e nas poucas horas que os seus olhos fecham, todas as memórias e recordações guardadas numa caixinha de onde nunca deveriam sair; decidem invadir-lhe os sonhos e deixá-la viver num mundo de ilusão e felicidade efémera. Um sítio onde a ficção se torna realidade. Mas a desilusão não demora a acontecer, quando os seus olhos se abrem e depara-se com o quarto de sempre, na companhia de sempre. A sua.
Ao acordar e constatar tal situação, entra em "modo de sobrevivência", onde só se levanta para se alimentar e pouco mais. Sente-se inútil. Quer fazer algo, mas sente-se sem força para tal.
O seu horizonte deixou de ser aquela linha que via quando olhava para a imensidão do mar, agora é a estrada que consegue ver pela janela. Ser capaz de se levantar e a alcançar, já é uma vitória. Falando em mar, tem saudades de se sentar á beira-mar e inspirar a sua brisa. Tem um efeito calmante. Como se fosse um doente que se encontra muito inquieto e precisa de levar uma injecção para se acalmar; ela acredita que o efeito dessa injecção, é o mesmo que o mar tem nela.
Lê muito. Mesmo que sejam apenas romances, fazem-na imaginar um mundo diferente do seu e adora essa sensação. Mesmo que sejam só páginas que posteriormente a possam fazer derramar algumas lágrimas, quando descobrir que alguém morreu, que alguém nasceu ou na existência do amor verdadeiro; é incapaz de deixar um livro pela metade. Sabe que precisa do mesmo tipo de coragem para continuar e folhear o livro da sua vida, até ao fim. Precisa de coragem para seguir para a outra página, a seguinte e a posterior, sem medo do que possa acontecer. Precisa de força, para não deixar esse livro a meio. Precisa de saber o final, na altura certa, sem apressar algumas páginas. Precisa de seguir, linha á linha até ao ponto final, antes que o fundo do poço, esteja á distância de poucos centímetros da sua cabeça.
Mesmo sabendo que o mais provável é que isso aconteça, ainda tem esperança de que alguém repare nela e a ajude. Que seja capaz de a tirar de lá, tapar o poço e não a deixar cair mais nenhuma vez. Um apoio seguro, forte, em que possa confiar; alguém que lhe dê a atenção que precisa, que esteja disponível para ela.

Deixou de acreditar em felicidade eterna, mas acredita em momentos felizes. Sufocada pela solidão, anseia pelo próximo momento...

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

[74]

Adoro sentir o cheiro da chuva, o corpo a arrepiar devido á descida das temperaturas, a brisa a rasar o meu rosto, as gotas a tocarem a pele. Adoro fechar os olhos, deitar a cabeça para trás e estender os braços, sentindo a chuva toca o meu corpo e faze-lo sentir-se vivo. Adoro o Outono e o Inverno. As nuvens escuras cobrem o céu e trazem uma brisa característica. Costuma ser a altura propícia para depressões, mas contrariando (mais uma vez), a generalidade, é a altura em que me sinto melhor. Adoro estar debaixo dos cobertores a ver a chuva bater na janela, ouvir os trovões e ver os relâmpagos. Adoro ver as pessoas a se aproveitarem desse tempo para aproximarem o companheiro, debaixo do guarda-chuva, que fica molhado, evitando que o outro fique. Adoro dar atenção a todos esses pormenores. À pessoa que agarra na mão da outra, mesmo que ela esteja gelada; que tira o casaco e dá á outra pessoa, e pensar em ficar doente é a última coisa que lhe passa pela cabeça.
É a altura em que o amor aparece, porque a atenção é desviada dos corpos esbeltos que se pavoneiam por todo o lado, e dada aos olhares e sorrisos capazes de mudar uma vida. É a altura em que por muito frio que tenhamos, um abraço é capaz de nos aquecer, até o coração. Altura em que temos desculpa para nos agarrarmos a alguém por termos frio, já que no Verão devido ao excessivo calor que se tem feito sentir, a tendência é evitar qualquer tipo de contacto, que faça aumentar a temperatura. Altura essa, em que uma chávena de café, uma manta, um filme e alguém em quem se enroscar, ultrapassam em grande nível, qualquer discoteca apinhada de gente, e qualquer praia repleta de pessoas estorricando ao sol. Altura em que a leitura de um livro, no quentinho do lar, sabe melhor que qualquer saída.

Sim, eu sei que toda a gente adora o que estou a menosprezar, mas já devem ter percebido que sou regida pela política “do contra”, logo, não há nada a fazer. São opiniões. E gostava de saber as vossas, não vá andar por aí alguma alma romântica/sonhadora, que me perceba e eu estar distraída a admirar a chuva…

domingo, 30 de Agosto de 2009

[73]

Todos temos dias em que a entrada num avião, resolveria o stress do quotidiano. A aventura de fazer um cruzeiro. A nossa conta ficar recheada de milhões, depois de termos acertado nuns números mágicos, sorteados a uma sexta-feira á noite. A casa e o carro dos nossos sonhos. A pessoa “certa”. O cão. Os filhos. O orgulho.

Incrível como a ideia de concretização, faz os olhos de alguém brilhar. Faz-nos idealizar, planear, imaginar e mesmo que nunca venhamos a concretizar nada disso, a capacidade que o ser humano tem em sonhar, fascina-me.

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

[72]

A minha inspiração parece que decidiu tirar umas férias prolongadas. Já me fartei de abrir blocos de notas, páginas do Word e páginas aqui, mas acabava por fechar minutos depois, por não ser capaz de escrever nada. Não é que muito tenha mudado, mas apeteceu escrever algo.

Até parece que perdi o "dom" de deslumbrar quem quer que fosse com as minhas palavras. Fossem elas sobre a sociedade, sobre corações enamorados ou partidos, sobre amizade, sobre textos criados pela minha imaginação. O tempo tem passado e sinto que essa parte de mim, está em branco. Tenho cada vez mais dúvidas, se algum dia serei capaz de a preencher novamente. Antes, era capaz de me focar na folha que tinha á frente e escrever durante horas, mesmo que nada fizesse sentido. Agora, a minima coisa é suficiente para me distrair.

Sinto falta daqueles momentos, em que os dedos, ganhavam vida própria e tocavam nas teclas com tal facilidade, que em poucos minutos, tinha um texto com nexo e a meu agrado. Parece que se tornou impossível. Os dedos continuam a tocar nas teclas, mas já não o fazem por vontade própria, mas porque os obrigo.

Preciso de tirar este mar de emoções de dentro de mim. Tenho que aliviar a pressão que a minha alma sente. De desbloquear a garganta. De limpar a cabeça. De sentir o sangue a correr nas veias, a ser bombeado pelo coração. De respirar com normalidade. Preciso de sentir que tenho tudo em perfeito funcionamento. Mas para ser capaz de o fazer, tenho que saltar certas barreiras, e continuando sem conseguir respirar, nunca as irei conseguir ultrapassar.

Mas dizem que a esperança é a última a morrer e que o tempo é um grande milagreiro...

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

[71]

Depois de terminar a leitura de "Lua Nova" (da saga Crepúsculo), numa noite de lua cheia...

Deitada na cama, sinto o luar entrar pela janela e iluminar-me o quarto. Há uma serenidade e fantasia no ar. Queria ser como Edward, capaz de ler pensamentos, de ter reflexos rápidos, instintos incríveis, de permanecer sem respirar por minutos/horas para proteger alguém. Ou como Bella, capaz de atravessar continentes para evitar a morte de quem amasse; sedenta de uma gota de eternidade, querendo transformar-se naquela para quem todos olhassem e nada soubessem, porque o seu olhar nada diria. Queria olhar para o luar e sentir o peito encher-se de ar, sentir o sangue pulsar nas veias, a língua atrevida picar-se nos afiados caninos. Há tanto que me fascina nesse mundo, seja ele realidade ou pura ficção, por alhos, cruzes, caixões e sangue, ou casas envidraçadas, noites sem dormir, uma tonalidade de pele diferente da considerada normal e uma temperatura corporal extremamente baixa. Sejam dentadas no pescoço ou na mão, sejam sensíveis á luz do dia ou não, o mundo do vampirismo sempre despertou em mim uma imensa curiosidade.

Há quem acredite em fadas, em bruxas e em extraterrestres.
Eu fico-me pelos anjos e pelos vampiros.

Who knows?
Who cares?

Maybe I'll find one someday...

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

[70]

Ela queria deixar o medo de parte e "aproveitar", queria ser capaz de se entregar a outra mulher. Tinha saudades de tocar outro corpo, além do seu. Saudades de descobrir pontos, fossem eles fracos ou fortes. Saudade de se sentir desejada. Saudade de beijos que incendiavam. Saudade de toques que queimavam. Saudade da maneira como colocava as suas mãos, de forma quase perfeita, numa outra cintura. Saudade de que os seus dedos se encaixassem perfeitamente nos espaços entre outros. Saudade de dançar ao som de certas músicas. Saudade dos olhares e dos sorrisos, que diziam tanto mesmo no silêncio. Saudades de passar por locais que traziam boas recordações, acompanhada. Saudade de adormecer e acordar, com alguém a abraçá-la. Saudade da concretização de promessas. Saudade de fazer amor, com a mesma intensidade e carinho, que alguma vez, lhe foi proporcionado. Saudade de idealizar um casamento. Saudade de listar nomes de crianças. Saudade de querer ter alguém a seu lado, quando engravidasse. Saudade de planear, envelhecer acompanhada. Saudade de amar e ser amada.

Saudade...

sábado, 30 de Maio de 2009

[69]

Amor. Palavra tão simples com um significado tão complexo. Amor entre mães e filhos, entre irmãos, entre amigos, entre enamorados. Seja lá de que tipo for: feminino, masculino, jovem, adulto, idoso, alto, baixo, caucasiano, asiático, europeu, africano, religioso, ateu, etc. Pouco importa quando o assunto é amar. Porque desde pequenos sentimentos falta dos pais quando não estão por perto, e continuamos a sentir depois de deixarem o reino dos vivos. Porque somos educados a partilhar e acabamos por criar amizades.

Amar não é só andar de mãos dadas na rua, e conhecer bem o corpo do outro. Amar é muito mais do que isso. Amar é sentir o peito a transbordar de um misto de sentimentos e mesmo assim, desejar cada vez mais. É deitar a cabeça no peito do outro e sentir os olhos encherem-se de lágrimas, por não ser capaz de imaginar, o que seria acordar sabendo que aquele coração já não batia. Amar é fazer planos que nunca tínhamos feito, é sentir o peito apertar quando vemos o outro sofrer. É acreditar que ainda existem casamentos duradouros. É saber que paixão e amor são coisas distintas, mas interligadas. É planear surpresas, sem ser uma data especial. É ver o outro dormir e sentir o coração acalmar. É querer ser capaz de oferecer o mundo inteiro ao outro porque o nosso pequeno mundinho parece demasiado humilde. É olhar nos olhos do outro e ver a sua alma. É acordar a seu lado e achá-lo perfeito, mesmo quando o seu cabelo diz o contrário. É ser capaz de fazer sacrifícios. É sentir que encontramos um porto de abrigo, alguém a quem podemos confiar o que quer que seja. É fazermos amor e sentirmos que é muito mais do que simples prazer carnal. É mudarmos (sem deixarmos de ser nós mesmos), o suficiente para completarmos o outro. É sentir-se finalmente satisfeito. É tentar descrever um sentimento, algo indescritível. É sentir...

Refiro-me ao amor de antigamente, que enfrentava tempestades e triunfava. Não do "amor moderno", que transforma simples desconhecidos em amantes, numa questão de minutos. Não acredito no último. Tenho pena de já não existirem "amores á antiga". Fico enternecida quando vejo dois idosos de mãos dadas. Se calhar porque sofreram para ficarem juntos e ainda se amam. E se calhar por ser uma eterna sonhadora/romântica, é que ainda acredito nesse tipo de amor. Mas seja lá como for, muita coisa mudou ao longo do tempo e entristece-me ver que a definição de amor, é uma delas.

Porque seja hetero ou homossexual, tudo o que referi torna-se igual. Se calhar, porque afinal de contas, o amor é o mesmo, com a pequena particularidade de ser sentido entre pessoas com corpos "iguais".

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Partilha-te 3

O prazo chegou ao fim e apesar de não terem alcançado o objectivo, contam com 143 histórias/testemunhos. Espero que o livro seja um sucesso (no sentido de mudar muitas mentalidades e de mostrar ao povo português [e não só], que somos todos iguais).

sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Partilha-te 2

O prazo de entrega dos textos foi alterado para dia 11 de Maio. Actualmente, contam com 115 histórias. Vá lá pessoal, já passaram de metade. Temos de alcançar os 200.

Divulguem por todas as pessoas, até mesmo aquelas que pensem que nada têm a dizer, muitas das vezes são as que vos surpreendem mais.

=)

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Partilha-te


O objectivo deste projecto é criar um livro através da partilha de histórias. Histórias reais, simples ou complexas, tristes ou alegres, grandes ou pequenas, de rejeição ou aceitação, de amor ou de ódio, individuais ou de grupo, mas histórias que partilhem fragmentos de vida.

Este projecto não está ligado a nenhum movimento civil ou politico, a nenhuma associação, movimento ou organização. Não representa nenhuma agenda, nenhum programa de intenções nem nenhuma causa em particular. Trata-se apenas de criar a possibilidade de partilha, amor e comunicação nas nossas vidas.

Com este tipo de comunicação esperamos contribuir para a temática da homossexualidade no sentido em que seja possível que outros possam também vê-la como algo banal.

200 histórias de partilha até 30 de Abril de 2009

Para mais informações, cliquem no link abaixo:

Partilhate